terça-feira, 21 de junho de 2011

A primavera dos povos, desde o século XIX

Professor escreve texto para o #Pergunteaohistoriador sobre expressão que é comumente aplicada até hoje

Mauricio Barreto Alvarez Parada


O professor Mauricio Barreto Alvarez Parada é o mais novo participante do #PergunteaoHistoriador. Ele foi o responsável por responder à questão da internauta que se identifica como Larissa B. [@larissabannwrt, na conta da rede social Twitter]. Ela perguntou "O que foi a Primavera dos povos?". Ele fez um artigo que remonta à origem da expressão e tentou atualizá-la. Se você também quer ter sua questão respondida no site, basta seguir esse passo-a-passo aqui. Se preferir que a sua questão seja respondida na Revista de História, veja como aqui.

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É possível responder essa pergunta de várias formas. Acredito que a motivação inicial seja o uso constante do termo para designar o processo de crise política por que passam atualmente os estado nacionais autoritários do norte da África, Oriente Médio e península arábica frente à manifestações populares. No entanto, a imagem da “primavera” como um despertar político não é original nem recente. Nos séculos XIX e XX, a ideia já tinha sido usada.

Originalmente, o termo “primavera dos povos” está associado às revoluções ocorridas na Europa central e oriental em 1848. A grande onda de reivindicações iniciada nesse ano, que tinha em sua agenda política a extensão do direito de voto e a ampliação de direitos das minorias nacionais, foi uma resposta à política continental de restauração que conduziu as decisões internas dos Estados europeus após a derrota napoleônica. Incapazes de absorver as mudanças propostas pelo ideário liberal/burguês e mesmo de processar a incorporação dos novos grupos sociais surgidos das transformações sociais da industrialização crescente, os Estados monárquicos europeus viram eclodir diversas revoluções. O ponto de partida foi a França. Em fevereiro de 1848 os franceses proclamaram Segunda República, derrubando o rei Luís Felipe I. A Revolução na França teve significativas repercussões no resto da Europa atingindo a Áustria, a Prússia, regiões da península italiana e da atual República Tcheca. Podemos observar a extensão mundial dessa onda revolucionária se considerarmos a Revolução Praieira, ocorrida em Pernambuco, como parte do processo da “Primavera dos Povos”.

No século XX, um outro exemplo do uso da imagem de “primavera” como uma descrição de um fenômeno político foi a “primavera de Praga”. Entre janeiro e agosto de 1968, a então Tchecoslováquia passou por uma série de reformas que desafiavam o modelo do “socialismo real” da União Soviética. Liderado pelo eslovaco Alexader Dubcek, o país viveu alguns meses de “socialismo democrático” que foi encerrado pela invasão do país pelas forças militares dos países que compunham o Pacto de Varsóvia.

Inspirado nesses movimentos por maior liberdade frente a regimes autoritários se utiliza hoje o termo “primavera dos povos” para designar as mudanças que estão em curso em diversos países da África e do Oriente.

Mauricio Barreto Alvarez Parada é doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

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